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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

ORQUESTRANDO A LIDERANÇA


Dedicado a Reginaldo Faria, grande "maestro"!!!


ORQUESTRANDO A LIDERANÇA

A primeira responsabilidade de um líder é bem definir a realidade. A última é dizer obrigado. Entre estes dois pontos, o líder deve servir. - Jacqueline du Pré
Na gestão, a primeira preocupação da empresa deve ser a felicidade das pessoas que estão ligadas a ela. Se as pessoas não se sentem felizes e não podem ser felizes, essa empresa não merece existir. – Kaoru Ishikawa

Faltam quinze minutos para o início do concerto. Dediquei algum tempo para encontrar o melhor local, e de olho no piano solo. Mas agora estou absorto, e namorando cada detalhe da arquitetura desse majestoso lugar. O teatro Dom Predro II em Ribeirão Preto tem um estilo arquitetônico próprio, adequado a espetáculos de ópera foi fundado na tradição das salas italianas. Em mais de cinquenta anos de história superou a decadência, foi parcialmente destruído por um incêndio, e ficou eternizado como a “Caverna do Diabo” - quando o seu subsolo recebeu bailes carnavalescos. Quase posso ouvir os sons do passado...

A orquestra já está no palco, e sou despertado de minha viagem no tempo pelo ruído e caótico do espetáculo dos músicos afinando os seus instrumentos... Scheherazade de Korsakov e sua leituras das Mil e Uma Noites está prestes a desabrochar. 20:00 e nem mais um minuto, e o maestro entra em cena. Todos os músicos se levantam em reverência, e ele se dirige ao primeiro violino para uma saudação especial. Agora é hora de receber o pianista com nova reverência. O protocolo de cordialidade e respeito está cumprido, e concerto pode começar. Mas o maestro se dirige ao público, visivelmente emocionado, e captura gentil e alegremente a atenção de todos ao passear pela sinopse da obra que será executada.

De súbito, uma linguagem que ainda não era capaz de entender, transforma o antes caótico cenário, agora em relutante silêncio, em harmonia e música... Gestos ininteligíveis para minha parca compreensão da música clássica parecem fazer todo o sentido para esta maravilhosa orquestra. E logo fica muito claro que todos aqueles espetaculares e virtuosos músicos estão sendo liderados para conjurar um espetáculo magnífico, e muito maior do que suas possibilidades individuais.

Mas suspeito que o segredo de toda esta orquestração não resida simplesmente no aprendizado da linguagem corporal do maestro, mas em um protocolo muito mais sútil, embora poderoso e eficaz, e que pretendo investigar. Também noto que os músicos focam mais em suas partituras do que no maestro... Seria o maestro de alguma forma dispensável? Qual o seu papel? Maravilhosos e bem treinados músicos, suas partituras, pentagramas, notas, divisões rítmicas... não está tudo ali naqueles documentos?

Neste concerto em particular não pude deixar de notar a alegria do maestro e o seu papel como mestre de cerimônias, conectando a sinfonia e os músicos à audiência. Senti certa perplexidade e sabia que estava diante de um momento especial; e a minha cabeça fervilhava de ideias e pensamentos, enquanto passeávamos de forma allegro non troppo pela primeira parte: O mar e o navio de Simbad. E percebi que estava bem diante de um exemplo sólido e elegante de LIDERANÇA. E percebi a importância de que este líder estivesse feliz, satisfeito com o seu trabalho... e percebi também que isso transcendia ao amor pela música. Ele estava feliz por partilhar outras estórias, as estórias de cada músico, do compositor, da obra, da audiência, de Steinway, Stradivarius, e mesmo daqueles que construíram, restauraram e conservaram esse teatro. Todas estas estórias estão sendo contadas em um concerto ao vivo, e eu percebia isso pela primeira vez.

Reconheço certo viés extático, afinal estava envolto por esta inebriante névoa clássica, épica, lírica. Mas tudo fazia enorme sentido, e ainda faz, enquanto relembro esta experiência, para conectar esta estória agora escrita com a estória de cada um que a estará lendo e encenando em seu teatro privado – a mente. Mas não basta o lirismo, e aprofundo minha observação... Quero produzir alguma noção prática, tangível, funcional, dessa experiência. Tudo isso fluía durante a segunda parte, apinhada de solos e variações dinâmicas, ora lento, depois andantino, allegro molto, e finalmente con moto...  para contar A história do Príncipe Kalender.

Passei a estudar o papel do maestro. E, analisando muitos vídeos, pude perceber que a minha analogia inicial, comparando um regente a um gestor, poderia estar equivocada; já que haviam diferentes tipos de maestros, diferentes estilos, indo da graça e elegância ao controle agressivo por meio de um gestual intimidante. E todos, em certa medida, pareciam funcionar perfeitamente. A minha esperança na analogia entre a regência e a gerência de um negócio parecia naufragar. Mas prossegui... até cruzar com a abordagem do maestro Itay Talgam, dedicada ao mesmo tema.

Talgam relatou o caso do grande maestro Ricardo Mutti, um dos estilos mais agressivos que já conheci, rsrsrsrs... Mutti costumava dizer que ele era o “responsável” por sua orquestra e pela obra; e entrevejo a palavra “chefe”. “Sou o responsável perante ele” – dizia olhando para o céu... E Mutti não se referia a nenhuma divindade, mas a Mozart:
Se eu sou o responsável por Mozart, esta será a única estória que será contada; como eu, Ricardo Mutti, o compreende.
E lá estava: eureca! Assim como na vida empresarial a liderança ou chefia de uma orquestra será exercida por homens... humanos, tropo umanos! E um traço em particular demarcava muito bem a fronteira entre um líder e um chefe: o personalismo

E a resposta a este personalismo seria igualmente agressiva; já que os 700 músicos do La Scala de Milão escreveram um manifesto dizendo a Mutti que:
Você é um ótimo maestro, mas não queremos trabalhar com você, por favor demita-se.
E agregaram ainda que eram músicos, humanos, e não meros instrumentos; e que não havia espaço expressar virtude, talentos e características individuais com alegria diante de tal controle estrito. Mas existem outras formas de exercer certo controle sem escorregar para a tirania. Richard Strauss, por exemplo, em seus Dez Mandamentos do Maestro escreveu:
Se está suando muito ao final do concerto, significa que não fez um bom trabalho [...] não olhe para os trombones, porque isso encoraja eles [...].
Particularmente considero o estilo de Strauss um tanto quanto apático, e ele deixa rolar... e isso até certo ponto também funcionou. Por outro lado Strauss escreveu sua própria música, e ainda assim regia olhando suas partituras, solicitando aos músicos que simplesmente seguissem as regras... sem interpretações. Sendo este outro tipo de autoridade. Afinal, como reger a terceira parte da obra de Korsakov sem suar a camisa? O Jovem Príncipe e a Jovem Princesa em andantino quasi allegretto, depois pochissimo più mosso, come prima e pochissimo più animato... Como estar piú animato em um fraque sem suar?

O grande maestro Karajan tinha um estilo mais fluido, nebuloso, intimista, misterioso, quase enigmático; o que permitia espaço para a má interpretação de seus gestos. Quando perguntado sobre os riscos de provocar confusão entre os músicos, mesmo na filarmônica de Berlin, ele explicou que o primeiro músico está atento aos seus gestos, enquanto os demais seguem a este músico, de forma que uns seguirão aos outros. Karajan acreditava que isso induzia algum tipo de interação de grupo; de forma que gostava de acentuar que os seus comandos nunca eram muito claros.

Tenho as minhas ressalvas sobre este modelo, já que Karajan regia com os olhos fechados, e seus músicos pareciam estressados tentando interpretar o que fazer. Em um episódio em Londres o flautista perguntou: “Maestro, quando devo começar?”; ao que Karajan respondeu: “Quando não estiver mais aguentando.”. De todas as formas este estilo também guardava muito personalismo, já que todos estavam tentando descobrir o que Karajan desejava. Era a música dele, o estilo dele, e de olhos bem fechados para outras necessidades. Este também era um controle rígido, embora exercido pela evocação de abstrações, e disfarçando mais uma vez a figura de um chefe... um chefe bem misterioso neste caso.

O caso que muito me impressionou, no entanto, foi o estilo de Carlos Kleiber. Ele regia com alegria, conectado aos músicos e à audiência, fiel à obra, mas solto e quase íntimo... como o maestro de Ribeirão Preto. Kleiber consolidava as minhas suspeitas sobre a possibilidade de liderar em lugar de chefiar uma orquestra. Assim como acredito ser possível liderar uma companhia ao invés de chefiá-la, abarcando as diferentes personalidades humanas, aplicando este mesmo conceito a diferentes negócios, produtos e serviços, fruto de diferentes histórias, e que participarão das estórias e histórias de outras pessoas e empresas.

Kleiber viaja na obra, mas abrindo espaço para a expressão da virtuose individual em meio a uma condução segura, embora saltitante... Como na Festa em Bagdá e no Naufrágio do Barco nas Rochas, fechando a quarta parte da obra de Korsakov em allegro molto, vivo e allegro non troppo maestoso. Assim como fizera o maestro Cláudio Cruz, regente apaixonado da Orquestra Jovem do Estado, ao abrilhantar o espetáculo no Teatro Dom Pedro II.

Afinal, e quando aprimoramos ou reinterpretamos uma obra, também estamos construindo uma nova estória dentra da história. Não proponho aqui que divaguemos sobre a obra, e em absoluto, mas sim que alimentemos a liberdade criativa humana, e que contemos a mesma estória em outro tempo, e um outro capítulo histórico. Mas como isso acontece? Como este mágico momento acontece?
É como estar em uma montanha-russa [...] Mas as forças desse processo por si só mantém você no caminho. – Itay Talgam
Isso enquanto cada um se expressa de maneira individual, em um processo relativamente controlado...  A confiança, o respeito, a liderança segura e justa, transforma toda a orquestra em uma fraternal parceria – como em um barco a remo. Podem haver disputas internas, diferentes temperamentos e níveis de ambição, mas o processo não pode acomodar e incentivar ambições desmedidas, ou todos naufragam.

Todos precisam conhecer seus papéis, e estar em boa forma para exercê-los, além da alegria; mas a liderança os transformará em um organismo orquestrado... Os procedimentos estão lá, as partituras; o plano está traçado, assim como os diferentes protocolos a serem seguidos. Existe uma métrica subjacente, uma divisão rítmica, o tempo está contado. Mas subsiste a alegria da expressão e do orgulho pessoal como colaborador, como parte do grupo, atentos ao líder que por sua vez vibra com a performance de cada um, e de todos.

Uma apresentação de Kleiber em especial é fantástica, e quando um trompetista comete não um, mas três erros consecutivos; o maestro sutilmente indica a falha uma, duas, três vezes, e demonstra a sua autoridade sem perturbar o andamento de toda a orquestra. Kleiber é sutil na puxada de orelha, e demostra toda a sua maestria como líder. Um dos maiores desastres em uma empresa ou organização é viver em um ambiente de intriga e fofoca; mas o problema será infinitamente maior quando os próprios líderes alimentarem intrigas e fofocas.

Empresas modernas têm estudado ambientes e sistemáticas que não valorizem o péssimo hábito de falar pelas costas. A transparência e a ética serão bens muito valiosos nas próximas décadas. Um líder deve dar o exemplo; afinal, de alguma forma ele deve replicar o DNA da empresa em sua conduta. Estamos enveredando por um caminho onde o compliance deixará de estar só no papel. Na dúvida, faça o que é correto.

Em diversos momentos é possível notar na regência de Kleiber quando ele abaixa corpo, como se rendesse honras ao solista, e parece mesmo baixar os braços para apreciar o solo... É magistral, é excepcional. Ele rege com os olhos – bem abertos -, com a boca, com todo o corpo, e de repente, suspende tudo e se curva para apreciar os seus músicos... seus parceiros. Ele está lá, está entregue ao que faz, mas não está mandando... está conduzindo e apreciando o trabalho de seus colaboradores. Kleiber circunscreve o processo dentro de um objetivo, e passa então a servir sua orquestra, para finalmente agradecer pelo belíssimo trabalho... ou pelo incansável empenho. 

Não seria possível adentrar este mundo tão sutil, e esta linguagem tão maravilhosa, sem a ajuda de Talgam e a inspiração de Cláudio Cruz. E gostaria de tocar em um último ponto: a liderança não é um jogo de soma zero! O êxito de um líder não pode implicar em perdas e descaracterização de seus liderados. Eles estão no mesmo barco. O progresso não é um jogo de soma zero... E por esta razão estamos vivendo três vezes mais, morrendo quarenta vezes menos ao nascer, e somos cem vezes menos violentos do que no passado. O progresso, em termos objetivos, mais parece uma curva ascendente em forma de serra. As subidas e descidas produzem desvios cognitivos. E apesar dos psicopatas à solta nas altas esferas corporativas e políticas, a compaixão tem ganho a batalha.

E, ao entender tudo isso, será possível extrair boa música de sua empresa... e praticar a verdadeira liderança. Mutti tinha sempre a mesma expressão no rosto; Kleiber interpreta suas obras com tudo o que existe nele. Esta é a suma experiência da entrega. Um líder deve entregar-se... em sacrifício. E você poderá sentir e ver a música em seu rosto.

Leonard Bernstein tem uma variação do estilo de Kleiber, com maior desenvoltura nas obras que retratam o sofrimento – talvez por ser judeu. Em determinado momento, em meio à regência, Bernstein costumava colocar a batuta debaixo do braço, como se dissesse ao solista: agora você está comando, companheiro! Um líder não rouba a cena, ele promove seus colaboradores, ele faz música com eles.

E finalmente, um líder se torna um exímio contador de estórias... Bernstein simboliza este gesto em uma regência única de sua orquestra de câmara. Ele coloca a batuta debaixo no braço e passa a admirar todo o concerto, apenas fazendo movimentos com a face, com os olhos, boca, sem perder o controle... É sensacional! Bravo, bravíssimo!!!


Carlos Sherman

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A Estatística do Amor

Lealdade

Desejo e Relacionamento

AMOR ROMÂNTICO, RELAÇÕES, SEXO... E AMAR!



AMOR ROMÂNTICO, RELAÇÕES, SEXO... E AMAR!
Dedicado a Claudia Goulart de Andrade

[Sobre um vídeo de Pedro Calabrez sobre o Amor e Paixão]
Obrigado, querida, já conhecia, e gostei muito. Tenho algumas ressalvas e complementos a fazer:

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No amor após a paixão a relação precisa funcionar. E caracterizar a paixão no vídeo como "demência" não é uma resposta científica, mas sim um apelo midiático. Existe certo exagero aí... É mais como uma sensação inebriante, deliciosa, e até viciante... e estudos mostram que em casos muito raros pode durar por toda a vida, embora normalmente despenque em menos de 12 meses... ou na hora que assinamos os papéis e passamos a dividir tudo.

O circuito do amor começa em uma região muito antiga, a área tegmental ventral, que se conecta no sistema límbico à amídala, liberando cortisol e produzindo estresse: o medo da perda, o ciúme. Também se conecta com núcleo accumbens liberando dopamina, e produzindo uma maravilhosa sensação de recompensa. Mas as pessoas produzem mais uma coisa que a outra, e em diferentes gradações, e isso depende intrínseca e inescapavelmente de nossa natureza neuropsicológica. Finalmente o córtex pré-frontal media tudo isso, com papel predominante da região ventral medial, responsável direta por nossa tendência à socialização.

Existe ainda o problema da inibição da serotonina, responsável pelo prazer "suficiente e necessário", alegria, e satisfação... E é aí que entra o importante papel do sexo, de "fazer amor", exatamente para lavar e enxaguar os nossos cérebros com serotonina, além de mais dopamina e endorfina - até 400 vezes mais poderosa que a morfina... Assim, o sexo cumpre uma função essencial na satisfação, no relacionamento, e na vida. Sexo é saúde!!! E a liberação sexual coincidiu com o processo pacificador que estamos vivendo.

Como o tempo, em uma boa relação - muito raro, já que não evoluímos para relações monogâmicas - o estresse e o medo decaem, a confiança e a cumplicidade aumentam, enquanto o sexo ajuda muito nessa transição. Essa é a trama da vida e do amor... Viva o CIRCUITO DO AMOR! VIDA A SEROTONINA, rsrsrsrssrsr...

Lembrando ainda que o amor romântico é recente; e começa a ser cantado em verso e proza por trovadores venezianos no século XII... E pensar que Platão desprezou a poesia em sua República vegetariana... E o cavaleiro medieval transcende então à condição de cavalheiro. O culto às tradições do passado é mantido, assim como o enaltecimento de atos heroicos, mas dessa vez o objetivo é a adoração a/de uma só mulher... Isso subverte, em certa medida, os impulsos biológicos ditos masculinos em relação à quantidade de conquistas, em favor da qualidade da conquista e da fidelidade. Este é um importante passo cultural alicerçado em possibilidades humanas inatas como o altruísmo. O quarto elemento presente neste passo histórico é o sofrimento. Mais tarde, no final do século XVI, Shakespeare materializaria este amor romântico em Romeu e Julieta. Um romance de apenas três dias com cinco mortos, rsrsrsrsrsrs... mas eternizado em nossa cultura... O AMOR ESTÁ NO AR! E lembrando que o Taj Mahal - que tive oportunidade de visitar - é uma construção mongol e muçulmana no século XVII;erigido em nome de uma entre centenas de concubinas - o que não guarda assim tanto "romantismo"...

Para essa tradição do amor romântico convergem cinco vetores contingentes muito fortes: (1) A cadeia de eventos que remonta o direito de propriedade, herança, e finalmente família - já que o matrimônio reza sobre bens e nada mais; (2) O enaltecimento prazer, com resultado o advento da pílula e outros métodos contraceptivos, subvertendo o papel procriativo e biológico em um tremendo parque de diversões; (3) A independência e direitos da mulher; (4) Questões de saúde pública; (5) A certeza da vida finita - mesmo quando não é confessa...

Queremos ser felizes aqui e agora... e com muito prazer... Hedonistas com pouco tempo a perder! Temos no máximo dois, um, ou nenhum filho. Não estamos dispostos à promiscuidade, e a independência da mulher nos círculos mais esclarecidos é um fato. A propriedade se torna secundária, quando colocada em perspectiva de realização pessoal e humana. E o que decorre de tudo isso é uma interessante quebra de paradigmas, convertendo a monogamia "por toda a vida" em relações monogâmicas eternas enquanto durem... Várias relações monogâmicas ou de fidelidade, e melhor dizendo de lealdade - que abrange e amplia o conceito da fidelidade...

Finalmente, tudo isso versa sobre o "amor romântico". Outras relações serão possíveis, e o amor romântico definitivamente não é a regra; já que a maior parte dos matrimônios no mundo ainda são arranjado ou negociados. Mas AMAR, verbo intransitivo, apesar da relação semântica, é outra coisa bem diferente, rsrsrsrsrs... AMAR é uma capacidade neuroquímica, ligada entre outras coisa ao conluio entre neuroreceptores e transmissores para a oxitocina e vasopressina. Estes hormônios estão em profusão no cérebro das mulheres durante a gestação e após o parto - mais em uma do que outras... Amar é um conceito mais amplo, que desencadeia ações fortemente altruístas, em contraponto ao egoísmo e individualismo. E ao contrário do que o senso comum pensa, estamos amando mais... Estamos selecionando o amor! Por isso estamos melhorando, aumentando a solidariedade, morrendo 40 vezes menos ao nascer, diminuindo a violência em mais de 100 vezes, e triplicando a expectativa de vida enquanto controlamos as taxas de natalidade.

Estou condenado à sensibilidade, de forma ainda foco no amor romântico eterno... e sempre pulo sem paraquedas, e até o fim... Rsrsrsrs... Uma resultante inequívoca de minha natureza neurofisiológica - e que bom!!! Então, e para aqueles capazes de amar... apreciem o voo, e curtam a vertigem!!!


Carlos Sherman

sábado, 16 de dezembro de 2017

A CIÊNCIA DO ERRO - Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva



A CIÊNCIA DO ERRO - Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva
[Uma resposta a Marcelo Gleiser]

Dedicado a Sheila Magri

Somos todo ignorantes, mas não sobre as mesmas coisas. - Albert Einstein

E poderíamos apendar o célebre pensador ashkenazi para salvaguardar também a escala da ignorância e a gradação do erro associado ao feito - ou desfeito, ou defeito! Somos todos ignorantes, sim, mas não sobre as mesmas coisas, nem no mesmo grau... 

Respondendo a um tal Daniel, enquanto debatíamos sobre a última eleição brasileira, afirmei que sim existem proposições verdadeiras e falsas - não importa o tema. E podemos sim atestar a força, veracidade ou falsidade de proposições; e devemos nos preocupar com isso para viver melhor, de forma mais ética e justa; aproximando interpretações e opiniões de fatos. E, contra toda sorte de relativismos oportunistas, podemos ainda dizer que sim existe uma realidade objetiva. Aguardem até o fim e entenderão.

Neste artigo em especial, estarei citando muitos dos homens notáveis sobre os ombros dos quais este anão que vos dirige a palavra subiu para ver mais longe... muito mais longe!!!

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Certa feita, o físico Isaac Asimov recebeu uma carta de um licenciado em literatura inglesa que muito vem ao caso:

Um jovem especialista em literatura inglesa, tendo me citado, passou a me repreender severamente sobre o fato de que, através dos séculos, as pessoas pensavam ter compreendido finalmente o universo, e através dos séculos ficou provado que estavam errados. Isso significava que a única coisa que podemos dizer sobre o nosso conhecimento ‘moderno’ é que ele está errado. - Isaac Asimov (A Relatividade do Erro; 1989)

Ele brilharia em sua resposta:

Quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, estavam erradas. Quando as pessoas pensavam que a Terra era – ‘exatamente’ [grifo meu] - esférica, estavam erradas. Mas, se você considera que ‘pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana’, então a sua visão está mais errada do que as duas juntas. - Ibidem

Asimov explicaria ainda que as pessoas estão sempre em busca de certezas absolutas ou negações absolutas. Agrego que as pessoas estão platonicamente aprisionadas em uma falsa noção de perfeição; de forma que se alguma coisa não é "exatamente" ou "absolutamente" perfeita então ela estará totalmente errada; e isso não nos leva a nada. Existem gradações de erros, sentenças verdadeiras e falsas; e a ostentação de verdades absolutas somente serve ao propósito de turvar a visão crítica diante da realidade objetiva – à qual Gleiser [o Marcelo] chama pejorativamente de "objetvismo"; impedindo que possamos diminuir a confusão reinante, e mesmo optando por posições mais acertadas do que outras.

"Objetivismo" é particularmente abjeto, irresponsável, e injustificável, partindo de alguém que alega pensar de forma racional; sempre lembrando que um tapa na cara da racionalidade corresponde a um tapa na cara da verdade... Podemos sim endereçar a verdade, sendo este o propósito da investigação científica - muito embora não seja a sua fonte de inspiração... Somos inspirados pela beleza da vida, por nossas paixões, amores, e por devoção a estes amores e princípios. E aqui discordo de outro conceito da “ilha” de Gleiser (A Ilha do Conhecimento – Os Limites da Ciência e A Busca Por Sentido; 2015), quando o autor afirma que a motivação científica seja a "ignorância". Na verdade, pretendemos escrever a poesia da realidade - e por amor!

Aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro. Porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não pode ver o fundo. Tem tanto medo! Gosta tão pouco de se meter na água! - Friedrich Nietzsche (A Gaia Ciência; 2012)

Sob o pretexto de uma tal "verdade absoluta" Gleiser questiona a existência de verdades - assim como o professor de literatura de Asimov. Gleiser alega procurar "sentido em sua vida", disparando contra a CIÊNCIA e contra o conhecimento... Mas não demonstra mais do que suas próprias e covardes limitações. Aliás, Galileu, célebre “cavaleiro do apocalipse”, tendo escolhido ridicularizar crendices infundadas com as de Gleiser, salvaguardaria o vigor de sua lucidez - e a postos - quando disse que:

Io stimo più il trovar un vero, benché di cosa leggiera, che `l disputar lungamente delle massime questioni senza conseguir verità nissuna. / Mais estimo encontrar uma verdade sobre qualquer assunto leve do que entrar em uma disputa longa sobre máximas questões sem atingir verdade nenhuma. - Galileu Galilei

Mas Galileu também esteve equivocado algumas vezes, como no notório caso dos anéis de Saturno; afinal, com o seu parco instrumento de trabalho, os discos lhe pareceram dois astros mais ladeando o planeta. Mas os acertos de Galileu, seu exemplo, e vida, valem muito mais do que seus evidentes equívocos – e Gleiser deveria saber disso.

Por exemplo, enquanto ainda especulávamos sobre a planura da Terra estivemos equivocados; mas tratávamos de endereçar a verdade, afinal a curvatura da superfície terrestre está sim próxima de zero. Este erro refletia as limitações instrumentais para a época; mas também, e sobretudo, refletia as limitações em termos de critérios para o conhecimento. Ainda não havia uma concisa teoria para o conhecimento, nem estatutos, nem recomendações formais ou uma metodologia para o conhecimento que estabelecesse um universo de validez, indicando a margem de erro esperada no confronto com a realidade. As "verdades" eram publicadas com ansiedade e alarde; e, portanto, sem critérios. Tudo estava por saber, e não sabíamos ao certo como saber.

Mas os tempos mudaram, e mudaram com o filósofo grego Eratóstenes (276-195 AEC), um “gênio do tamanho da Terra”, que seria o primeiro a notar que a longitude das sombras em relação ao mesmo horário do dia variava com a latitude onde a medição fosse procedida. Eratóstenes sabia que no vigésimo primeiro dia do mês de Junho aconteceria o Solstício de Verão na cidade de Siena; e que,precisamente ao meio dia o Sol brilharia direto dentro de um poço, iluminando “o seu fundo sem que nenhuma sombra se projetasse em suas paredes”; isso, enquanto em Alexandria exatamente à mesma hora ainda haveriam sombras projetadas sobre a parede.

Eratóstenes inferiria, então, que a Terra deveria ser esférica; uma revolução para o seu tempo. Com ajuda da trigonometria, considerando a distância entre Siena e Alexandria e o ângulo formado por este arco em relação ao “centro da Terra”, ele calculou a curvatura correta da Terra. Isso foi medido em “passos” e “estádios”, e envolveu “sombras”; tudo muito impreciso, embora engenhoso, perspicaz, apaixonante e científico...

Endereçávamos a verdade com ainda mais acuracidade, ao que hoje podemos adicionar algumas casas decimais, calculando a curvatura da Terra em 0,0000786 por quilômetro. Isso seria crucial para que pudéssemos revisar toda a cartografia da época; e os mapas, palmo-a-palmo, passariam a ser muito mais precisos, a navegação revolucionada, e o mundo redescoberto. Tudo isso graças ao gênio e à ousadia de Eratóstenes; e apesar do erro irremediavelmente incorporado pelas limitações de seu tempo.
A ciência, meu rapaz, é feita de erros, mas estes são erros uteis de serem cometidos, pois nos conduzem pouco a pouco à verdade. - Jules Verne (Viagem ao Centro da Terra)

Agora a Terra era uma “esfera” perfeita, o que também estaria equivocado por algum tempo. Observando os céus e os demais planetas, o gênio investigativo de Newton demonstraria que a massa terrestre em rotação sofria um acentuado achatamento nos polos. Medidas mais precisas nos permitiriam calcular o grau de elipsidade da Terra. A Terra esferoide ainda seria muito mais próxima de seu passado esférico do que de seu passado plano - e diminuindo a gradação de erro. Uma esfera prefeita nos daria uma curvatura em torno de 12,5 cm/km, enquanto a curvatura elíptica varia de fato entre 12,657 e 12,472 cm/km. Estávamos chegando lá!

Este raciocínio conduzido por Asimov, lato sensu, nos permite dizer que julgar a Terra esférica é muito mais correto do que considerá-la plana; e tal noção tem enorme impacto sobre as nossas vidas. Também podemos dizer que julgar a Terra plana é muito mais incorreto do que julgá-la esférica, com os mesmos e severos impactos sobre o nosso convívio com a realidade objetiva. E ensinar tais princípios, valorizar o endereçamento obstinado da verdade, é muito mais produtivo do que destacar a imprecisão deitada sobre o caminho...

Mesmo o nosso esferoide perfeito seria revisado em 1958 quando o satélite Vanguard I entrou na orbita da Terra. Uma literal vanguarda científica seria capaz de medir a forma de nosso planeta com uma precisão sem precedentes. Descobrimos que nos parecíamos com alguma coisa entre uma pera e uma batata – flutuando e rodopiando no espaço. Correções da ordem de milionésimos de centímetros por quilômetro foram procedidas, e aqui estamos – graças ao gênio de Eratóstenes!

Vivemos um conflito neuropsicológico de ordem evolutiva; somos causais, dicotômicos, lineares, animistas, essencialistas, intencionalistas, maniqueístas, e tateamos assustados no terceiro milênio, utilizando cérebros de 150.000 anos, adaptados à savana africana... Vagamos perdidos em uma espécie de gangorra de absolutos, tudo ou nada, certo e errado, bom ou mal. Mas a realidade se descortina livre, desimpedida, e precisamos estabelecer novos parâmetros e bases de compreensão para conformar avanços objetivos. O absolutismo, o generalismo, e seu homólogo, o relativismo, tem se prestado ao inconsequente e especioso propósito de justificar medidas autoritárias e dogmáticas, alegando a impossibilidade de exatidão. Pois não seria muito melhor sempre acender mais um pequeno lampejo de luz do que tropeçar na escuridão?

Hoje sabemos que a mecânica genética de nosso corpo evoluiu para mitigar os erros e mutações em nosso DNA. É isso mesmo, o código genético tem um mecanismo autocorretivo, e desta forma estamos menos sujeitos a mutações drásticas do que estivemos no passado. E podemos dizer que a Ciência conta hoje com o mesmo sofisticado mecanismo: o Método Científico o Método Dedutivo Baseado em Prova (Popper). De forma que a falibilidade assumida da Ciência de hoje em diante está muito menos sujeita a erros crassos do que esteve no passado das crenças.

[...] talvez a Terra seja esférica agora, mas um cubo no próximo século, e um icosaedro oco no próximo, e com a forma de donuts no seguinte. O que ocorre, na realidade, é que quando os cientistas consegue elaborar um bom conceito, eles gradualmente o refinam e ampliam, com crescente sutileza, à medida que seus instrumentos de medição melhoram. As teorias não estão tão equivocadas, mas incompletas. – Isaac Asimov (Ibidem)

Não é tão importante definir se este valoroso processo se estenderá infinitamente ou não, absolutamente ou não; mas, sobretudo, devemos considerar o bem que este honesto trabalho provê; na medida em que inescapavelmente ilumina o que antes era escuridão. O importante não é a perfeição, senão progressar... Assim, em 250 anos de maturidade científica, triplicamos a expectativa de vida - adormecida desde o Homem de Cromagnon, há 50.000 anos -, reduzimos em quarenta vezes a mortalidade infantil, e a violência em cem vezes... enquanto a população foi multiplicada sete vezes...

Hoje, muitas teorias que alcançam o status de revolução científica não passam de um conjunto apropriado manipulações e refinamentos de um corpus de conhecimento pregresso; como quando Copérnico nos levou de um sistema centrado na Terra para um sistema centrado no Sol. Copérnico estava desafiando o que parecia ser óbvio com algo que soava ridículo. Aristarco de Samos e Eratóstenes viveram a mesma experiência... O personalismo do empenho científico também cedeu lugar ao trabalho independente de grupos e escolas, promovendo conclusões conscilientes.

Normalmente, e há algum tempo, vivemos de refinamentos; caso contrário, e considerando a autorregularão e autocorreção científica em voga, uma teoria estapafúrdia teria vida muito curta. Exemplos pífios como a “fusão a frio” não passaram de pseudociência, e não resistiram o crivo científico mais elementar. Isso nos deveria alertar ainda mais sobre a necessidade de aprimorar nossos critérios, e não desconsiderá-los – como Gleiser e o “professor de literatura” sugerem.

Voltando a Copérnico, e por mais que a proposição heliocêntrica parecesse revolucionária, toda este alvoroço não passou de um problema político-religioso – da alçada do “absoluto” e do “absolutismo”. Cientificamente, no entanto, tratava-se de um refinamento teórico em relação aos movimentos dos já conhecidos corpos celestes. Seria a autoridade religiosa Católica, expressa em seu "livro negro" ou Index, quem elevaria o trabalho de Copérnico à condição de heresia - sete décadas depois de sua publicação em 1616, e lá permanecendo até 1822; mas já era tarde, e o estrago já estava feito...

Copérnico pretendia apenas encontrar um modelo que melhor acomodasse a realidade de suas observações celestiais. Neste caso, e em especial, apesar de toda a gambiarra incorporada ao modelo aristotélico-ptolomaico, a sobrevivência do antigo - “salvando a teoria” platonicamente - só seria possível, e por tanto tempo, devido à força da autoridade político-religiosa vigente.

A Teoria da Evolução enfrentaria os mesmos credos e as mesmas barricadas:

[...] as formações geológicas terrestres mudam muito lentamente, assim como os seres vivos evoluem tão lentamente, que parecia razoável no início supor que não haviam mudanças, e que a Terra e a Vida sempre existiram como são até hoje. Sendo assim, não faria diferença se a Terra e a Vida tivessem bilhões de anos de antiguidade, ou somente milhares. Milhares era mais fácil de compreender. - Ibidem

A exemplo do entendimento sobre a curvatura terrestre, quando medições mais precisas revelaram que a Vida evoluía em um ritmo muito lento, porém vigoroso, pudemos aprofundar também a compreensão sobre a idade da Vida. Nasciam a Geologia Moderna, a Evolução, e a Biologia.

É apenas porque a diferença entre taxa de variação em um universo estático e a taxa de variação em um universo em evolução está entre zero e muito próximo de zero que os criacionistas podem continuar a propagar seus disparates. - Ibidem

O raciocínio também se aplica ao mundo dos micro-organismos. Um mundo de escalas invisível estava escondido de nós; e toda sorte de crendice seria erigida para preencher as lacunas diminutas hoje ocupadas pela Microbiologia. Cotidianamente, usávamos dizer – e muitos ainda o fazem: “menino, não tome esta friagem porque você vai ficar gripado”. Recentemente ouvi tal disparate de uma amiga microbiologista, para quem o filho descalço resultaria resfriado. Tratei de recordá-la de dois aspectos: primeiro, como microbiologista, ela estava obrigada a bem conhecer a origem viral de gripes e resfriados; depois, como bióloga, seria imperdoável que ela não recordasse que a seleção natural jamais teria poupado nórdicos, russos, além dos inuits, se tal conjectura fosse minimamente possível.

Os "sábios" conselhos da dita "medicina popular" ou "medicina alternativa"  estão todos sub judice depois que a ciência adentrou o mundo secreto dos microrganismos, e ajustando a sua escala para uma compreensão profunda e necessária da natureza: a realidade em uma placa de petri... Deuses e tradições evaporavam no ar, enquanto a Ciência aprimorava seus métodos e instrumentos e reduzia suas escalas. O caminho estava aberto para a descoberta dos antibióticos, vacinas, medicamentos... e mais vida - a partir da vida obstinada de homens como Pasteur.

gap entre o conhecimento disponível no acervo científico humano e a nossa práxis popular é gigantesco. Com a desculpa de que "não sabemos tudo" permanecemos proibidos de saber, ou "sem saber nada" sobre quase tudo. Apenas tangenciávamos a realidade; mas não éramos capazes ou encorajados a mergulhar nesta maravilhosa realidade... Na POESIA DA REALIDADE! Quando escrevi FIAT LUX - O Homem, Memória do Universo estabeleci como missão colateral interessar meus leitores pela realidade, despertando a curiosidade em conhecê-la por dentro.

O conhecimento científico disponível está muito mais perto de um eventual conhecimento último - em cada uma das fronteiras do conhecimento – do que o fulano médio está da linha de largada para o conhecimento do ensino fundamental. A maioria de nós sequer começou a jornada do conhecimento, e sequer chegou na marca onde diz: ZERO.

O físico Marcelo Gleiser diz que o conhecimento é como uma “ilha” em meio ao desconhecido; e que quanto mais esta “ilha” cresce maior serão as suas fronteiras. É verdade. Mas quanto mais esta ilha do que é conhecido cresce, por mais que hajam novas fronteiras, menor será o espaço lá fora - ou daquilo que ainda não conhecemos. Afinal, o Universo é finito, assim como finita é a sua estrutura.

Hoje, ainda podemos chutar uma pedra sem ressalvas, mas pensaremos duas vezes antes de pisar em uma formiga ou esmagar um mosquito, e jamais consideraremos a hipótese de maltratar um cãozinho. Estas são conquistar recentes, afinal aprendemos sobre a complexidade dos sistemas neurais, e sabemos que muitos seres vivos sentem dor e vivenciam o sofrimento neuropsicológico.

Por isso, avançamos sobre o oceano de ignorância que nos cercava - arbitrado pela crença de que o homem era uma espécie de “escolhido”, e sendo o único sujeito à dor. Ainda assim, na Bíblia e em Aristóteles, alguns homens são mais escolhidos do que outros, e a escravidão é amplamente aceita e recomendada. Matar um infiel - na Bíblia e no Corão - é antes um dever... Pelo humanismo, pela iluminação científica, sabemos que isso não é correto. Tais fronteiras não aumentaram a nossa ignorância, mas certamente abriram novas fronteiras dentro da “ilha”.

O conhecimento avança, e a região inexplorada recua [...] com nosso conhecimento expandido. – Linda Randall

Um dia, este espaço tomado pelo desconhecido representou a diferença entre morrer na selva de dor de dente aos 23 anos ou ministrar uma dose de 500 mg de Cloridato de Tetraciclina, e voltar a sorrir por mais 40, 50, 60 anos. O importante não é chegar ao fim, mas seguir em frente, viver a viagem, viver uma vida digna, útil, e prazenteira; contribuindo como parte de um organismo maior chamado: Humanidade.

Gleiser insiste, sob o tendencioso pretexto de que a Ciência não poderá ser exata ou completa, que uma tal “espiritualidade” ainda mais inexata e na verdade “irreal” poderá ser invocada para preencher tais lacunas.

Uma balança mede o nosso peso com precisão dada pela metade de sua menor graduação: se a escala é espaçada por 500 gramas, só poderemos aferir o nosso peso com precisão de 250 gramas. Não existe medida exata: toda medida deve ser expressa dentro da precisão do instrumento usado e o faz com ‘barras de erros’. [...] uma medida de 70 quilos deve ser expressa como 70 +/- 0,25 kg [...]. Não existem medidas perfeitas, sem erro. - Marcelo Gleiser (A Ilha do Conhecimento)

Sim, mas e daí? Uma balança caseira de precisão de uma ou duas casas decimais está sob um crivo mais frouxo em termos científicos; mas quanto mais ciência mais exatidão. Medimos a temperatura média do Universo com precisão de 5 casas decimais. Não há como ser "exato", "absoluto", mas e daí? Indicar a margem de erro é uma lição Ética da Ciência e não o contrário. Deus e a religião não indicam suas margens de erro; e seus fies seguidores simplesmente justificam isso alegando que "o absoluto a deus pertence", ou é “incognoscível”... Mas não precisamos da perfeição, já que a natureza e o universo emergem da imperfeição e da diferença. O argumento de Gleiser é pois meramente platônico.

Asimov concordaria com isso, e tem algo mais a dizer sobre a Ciência e a escuridão:

Existe apenas a Luz da Ciência, e acendê-la em qualquer lugar é como acendê-la em todos os lugares. - Isaac Asimov (A Relatividade do Erro)

Em busca do exato, do absoluto, do “espiritual”, nos esquecemos ou simplesmente desconhecemos sobre a existência de gradações de erro - uma falibilidade assumida na atitude científica, e sendo essa sua maior fortaleza, e não o contrário. Saber de tudo, repito, é um agravante religioso, e não científico. Esta atitude covarde ou amedrontada diante da vida, politicamente ou falsamente "correta", orquestrada ou não, é o que mais prejudica o avanço científico e humano.

Quem pensa ver algo sem falhas, pensa naquilo que nunca existiu, que não existe, e que nunca existirá. - Alexander Pope

O vigoroso e genial físico Richard Feynman dá o seu depoimento:

Um princípio de pensamento científico corresponde a uma espécie de honestidade incondicional [...].

É esta honestidade incondicional ou Ética que reside no Ceticismo Científico; confrontando a vacuidade das crenças e os discursos persuasivos, que trabalham nas sombras e em favor de mentiras, interesses e sandices. Isso porque as crenças se baseiam apenas na caprichosa, débil ou vã vontade de acreditar. Não se pode, de forma alguma, comparar a nobre atitude de tornar-se ciente pelo confronto de hipóteses sérias e consequentes com a realidade, com a autoridade especiosa de velhas ou novas convicções.

Não se pode usar como desculpa a falibilidade assumida da ciência para validar crenças. Uma verdade científica tem uma validez e universo de aplicação, assim como seu erro assumidamente demarcado, e que estará sob crivo constante, acirrada revisão, e variada fiscalização, sendo esta a maior fortaleza da Ciência, e não o contrário - repito...

Sobre a pretensa critica ao erro científico, devo reagir lembrando que dogmas religiosos não podem ser revistos, e por isso mesmo sua defesa se faz com cinismo, agressividade, violência; e no passado médio, por meio dos artefatos do terror "inquisitório". Asimov nos ensinou sobre a relatividade do erro e não da VERDADE...

E insisto que nenhum debate dito filosófico ou político – e sob nenhum pretexto - estará isento da necessidade de entender antes sobre a'realidade e os subsequentes parâmetros que regem a nossa tênue lucidez neuropsicológica. Inventamos a Ciência, em última análise, para testar a nossa própria lucidez!

Nossa mente evoluiu pela seleção natural para a adaptação, e não para a busca da verdade. - Steven Pinker (Como a Mente Funciona; 2003)

Um anúncio afixado diante de uma igreja batista americana da seita New Canaan [ou Nova Canaã], alertava no terceiro milênio:

Um livre pensador é um escravo de Satan.

Sei que Gleiser alegará que esta congregação é doentia, ou que ele não fala “desse tipo de espiritualidade”, mas crimes contra a liberdade de pensamento sempre estão associados à religião.

Com ou sem religião, pessoas boas podem se comportar bem e as pessoas ruins podem fazer o mal; mas para que pessoas boas façam o mal, elas precisam de religião. - Steven Weinberg (discurso em Washington em 1999)

Sobre os “limites do conhecimento”, Asimov desafia:

Se o conhecimento pode nos trazer problemas, não será através da ignorância que iremos resolvê-los.

Gleiser insiste na escuridão científica justificada por sua inexatidão e reducionismo, mas tolera sem pesos ou medidas uma tal “espiritualidade”. Convido a advertência de Sagan no adágio de abertura de seu inesquecível O Mundo Assombrado por Demônios:

É melhor acender uma vela do que praguejar contra a escuridão. - Carl Sagan

Por que escrever uma obra para ressaltar os limites da Ciência, se as fronteiras continuam “dentro da ilha”? E como Gleiser citou a Lucrécio - inestimável livre pensador - de forma desonesta, eu respondo também com Lucrécio:

Assim como as crianças tremem e têm medo de tudo na escuridão cega, também nós, à claridade da luz, às vezes tememos o que não deveria inspirar mais temor do que as coisas que aterrorizam as crianças no escuro. - Titus Lucretius Carus (De Rerum Natura [ou Sobre a Natureza das Coisas]; 60 AEC)

Devo lembrar a Gleiser que Lucrécio foi o verdadeiro algoz histórico dos deuses, sendo seguido por Jean Meslier, para que Nietzsche levasse a fama. Mas existem verdades? Existe uma verdade absoluta? A primeira questão é objeto de trabalho da Ciência, a segunda parte de pressupostos fechados e dogmas religiosos; mas podemos sim afirmar que existem verdades, existem asserções verdadeiras, assim como proposições mais corretas do que outras, e diferentes gradações de erro. E sabemos disso com ainda mais segurança depois de Tarski, Russell, Frege, Popper, Sagan e Asimov...

O filósofo e matemático alemão Friedrich Frege (1848-1925) escreveria – abrindo os trabalhos:

Entendo por pensamento não o ato subjetivo de pensar, mas o seu conteúdo objetivo.

Um pensamento é fruto inescapável do processamento neural; e será por meio da linguagem que trataremos de manifestar o seu conteúdo ou objeto. A linguagem é inata, hoje sabemos, mas a escrita não. O filósofo e matemático polonês Alfred Tarski (1901-1983) solucionaria o problema da correspondência entre uma proposição formulada pela linguística e a realidade; e o fez de forma surpreendentemente simples, intuitivamente satisfatória, e irrefutável.

Tarski focou na formulação semântica de proposições:

A sentença (T) é verdadeira se, e somente se, o que ela diz é verdade.

Onde T seria a Convenção de Tarski.

Imagine que você e eu estamos contemplando uma bela cadeira vermelha, estilo Luis XV - exatamente como esta bem ao lado da lareira em minha sala. A proposição “Esta cadeira é vermelha” seria verdadeira se e somente se “esta cadeira” for vermelha. Isso me parece lógico! Ou não? E óbvio! O que você acha?

Então qual foi a contribuição de Tarski? A sacada de Tarski foi eliminar nebulosidades semânticas, preocupando-se em formatar de maneira objetiva a formulação das sentenças ou proposições, e evitando truques, hipérboles, verbosidades e falácias retóricas. Para isso ele utilizou os conceitos de “objeto” ou conteúdo, “verdade” ou veracidade, “metalinguagem”, “metalinguagem semântica” e “linguagem-objeto”. Por exemplo: se tomamos o português como metalinguagem e o inglês como linguagem-objeto, e o seguinte objeto “the dog is sleeping", então poderíamos formular a seguinte sentença em nossa metalinguagem semântica: A proposição do inglês (linguagem-objeto) “the dog is sleeping” (objeto) corresponde aos fatos (é verdadeira) se e somente se o cachorro está dormindo.

A verdade começa por uma formulação semântica adequada que permita a sua comprovação ou refutação. O que está vago e mal definido não pode ser confrontado com a realidade. E se existe uma metalinguagem na qual podemos apresentar proposições, descrever fatos, então também será possível, e de forma trivial, estabelecer a correspondência entre fatos e proposições - endereçando assim a verdade ou a veracidade de sentenças e argumentos. Isso, e bastando alguma honestidade retórica e integridade intelectual - conforme acentuado por Feynman - nos leva à atitude científica...

A Convenção de Tarski (T) pode ser formalmente descrita por:

(T) X é verdadeiro se, e só se, p; onde p é o predicado que pretendemos validar para a sentença X

O exemplo utilizando uma linguagem-objeto em inglês serviu para conter eventuais arroubos relativistas de ordem inter-linguística ou ainda intercultural. Vale repetir que a construção linguística é inata; em milhares de dialetos e diferentes linguagens em todos os tempos e lugares sempre estiveram presentes as figuras do sujeito, verbo – ou ação -, substantivo e predicado; já o vocabulário e as regras gramaticais precisarão ser aprendidos - e à duras penas.

Observem que o predicado “[...] corresponde aos fatos” ou “[...] é verdade” está protegido pela metalinguagem, não importando se algum dialeto por ventura venha a evitar esta vital caracterização... Sendo assim “[...]” ou “X” poderá ser definido nos termos de qualquer linguagem-objeto; então, enfoquemo-nos na verdade, e utilizando como linguagem-objeto a nossa própria língua vernácula: o português.

E neste ponto ficará evidente a motivação por trás da incessante busca por proposições verdadeiras ou positivas na Ciência. E vamos com o eminente Karl Popper:

De uma classe (ou um sistema) de proposições, que são todas verdadeiras, nenhuma proposição falsa pode ser assumida.

Enquanto os postulados religiosos ou “espirituais” dormem em berço esplendido, percebam o cuidado em estabelecer os contornos da verdade ou da veracidade. Isso implica que, embora deus seja um bolso cada vez mais vazio, e enquanto reduzimos inequivocamente o oceano de ignorância, ainda assim não poderemos apenas por princípio descartar a existência de deuses ou do “unicórnio cor-de-rosa”.

De teorias (sistemas de proposições) que concordem com os fatos, não se pode derivar nenhuma proposição lógica que não concorde com os fatos. - Karl Popper

Esta importante regra, que de fato perfaz uma atitude ética, explica por que em Ciência efetivamos proposições positivas e nunca negativas. “A Terra descreve uma orbita fechada – ou captiva - em torno do Sol” é uma proposição científica; mas “não existem gnomos empurrando a Terra” não é – por mais que saibamos ser uma proposição lúcida. Podemos invalidar ou provar a falsidade de uma proposição positiva; e.g, “a Terra é plana e está assentada sobre colunas” é uma proposição científica e também é inteiramente falsa, mas “a Terra não é verde” não nos leva a lugar algum.

Claro que existe o fato da vida finita, de forma que o fator tempo a perder estará sempre em jogo, assim como a questão da prioridade ou utilidade: Cui bono?. Ou seja, não podemos cientificamente e em princípio negar a existência de Tupã; mas podemos considerar a busca pela sua existência uma tremenda idiotice quando confrontamos a mais absoluta falta de evidências; isso, além do flagrante conflito com proposições já demonstradas como: “culturas primitivas praticaram o animismo” ou “culturas primitivas desconhecedoras do ciclo da chuva,cortaram gargantas e fizeram danças rituais para que chovesse”. E daí a escolha é sua!

As filhas do sumo sacerdote Anius transformavam o que quisessem em trigo, óleo em vinho. Atalida, filha de Mercúrio, ressuscitou diversas vezes. Esculápio ressuscitou Hipólito. Hércules resgatou Alceste da morte. Heres retornou ao mundo após passar uma quinzena no inferno. Os pais de Rômulo e Remo eram um deus e uma vestal virgem. O Paládio caiu do céu na cidade de Tróia. O cabelo de Berenice se tornou uma constelação. [...] Dê-me o nome de um povo em meio ao qual incríveis prodígios não aconteceram, especialmente quando poucos sabiam ler e escrever. - Voltaire (Questões Sobre os Milagres; 1770)

A Teoria da Verdade como Correspondência nos assegura que um pensamento pode ser considerado verdadeiro se a proposição que formula este pensamento é verdadeira. Proposições gerais ou universais devem ser encaradas como fundamentalmente hipotéticas, mesmo que possam ser verdadeiras. E por isso é tão importante o caráter científico ao reduzir seus problemas e limitar suas proposições, já que buscamos o acercamento e o endereçamento da verdade. Começando humildemente, poderemos construir proposições verdadeiras de grosso calibre, com no caso do Modelo Padrão.

A Metodologia Científica é um sério e consequente conjunto de recomendações, ao que Gleiser jamais poderia haver chamado de cientismo... O que é isso? E cientistas não passam de homens neuropsicologicamente curiosos, obstinados, talvez ousados, e certamente sem temores conservadores; homens buscando a verdade e falhando em encontrá-la – mas inexoravelmente atidos a ela. E falhando poderemos aprender, e recomeçar; o que parecia ser uma potencial falsificação da teoria newtoniana da gravidade no caso da orbita calculada para Urano nos levou ao descobrimento de Netuno.

Mas voltemos à verdade, voltemos à minha cadeira vermelha, afinal você pode estar esperando para me desbancar. Então temos a seguinte proposição devidamente formatada, uma questão semântica que pode ser submetida ao escrutínio da ciência: “Esta cadeira é vermelha” é uma proposição verdadeira se, e somente se, esta cadeira é vermelha.

Mas como podemos assegurar que o vermelho que você vê é o mesmo que eu vejo? E como poderemos definir o que é ou não vermelho? Simples: imaginem vocês que providencialmente eu trago comigo um espectrofotômetro; um daqueles aparelhos que medem a frequência dentro do espectro eletromagnético, podendo exprimir a cor em um número objetivo dentro do sistema decimal, medido em comprimento de onda ou frequência - não importando que sejamos daltônicos, portadores de catarata ou icterícia. Através de uma singela convenção linguística concordaremos que comprimentos de onde dentro de determinada faixa do espectro eletromagnético nos leva por correspondência simples ao termo em português "vermelho".

Uma psicóloga amiga me interpelou neste ponto: "Mas cálculos matemáticos são exatos?" Devo dizer que sim, lato sensu, mesmo que esse não seja o caso aqui! Mas entendo a confusão dela - stricto sensu. Ela, vocês e Gleiser estão interessados no erro referente a esta medição; afinal, este é um equipamento desenvolvido por físicos e engenheiros para medir o espectro da luz visível. Um equipamento vendido pela Internet, e que apresenta um valor objetivo em um display LCD, com uma precisão de 0,15 DE, levando apenas alguns segundos para calcular o resultado. E se for discutir sobre cognição e cores, esteja segura de conhecer os conceitos básicos relativos às disciplinas correlatas.

Diante de situações cotidianas como esta, me preocupo em entender como um experimento tão trivial suscita tanta contestação e controvérsia. Qualquer crendice, qualquer afirmação descabida, tem maior respeito, autoridade e aceitação do que o conhecimento objetivo de fenômenos naturais. Será o sistema educacional? Será a relativização filosófica? Serão tendências neuropsicológicas? Ou a conjunção sistêmica de todos estes fatores? Certamente não se trata de um problema relativo às “limitações da ciência” – como afirma Gleiser... Outras limitações e outras fronteiras estão em jogo; todas elas devidamente estudadas pela Neurociência Cognitiva.

Consideremos algumas variantes do Paradoxo do Mentiroso, sendo a mais antiga que se tem notícia a versão do jônico Eubulides de Mileto, sucessor de Euclides de Mégara, ainda no século VI AEC:

Um homem diz que ele está mentindo. O que ele diz é verdadeiro ou falso?

Ainda no século VI, o paradoxo também foi associado a Epimenides de Creta, que teria dito:

Todos os cretenses são mentirosos.

Um tal "São Jerônimo" teria aplicado o conceito a David, quando afirma nos samos bíblicos que:

[...] Todos os homens são mentirosos. - Salmos [116:11]

Trata-se apenas de um truque lógico, com uma confissão moral... Teofrasto, sucessor de Aristóteles, escreveria três rolos de papiro sobre este "paradoxo", e Crisipo mais seis. Todo este trabalho e toda esta perda de tempo silogística seriam enterrados pelas areias do tempo. Esta antinomia prova que um argumento pode parecer lógico embora seja falso; e por vezes, como é o caso, ridículo...

Esta frase não é verdade.

Verdadeiro ou falso? Logicamente astuto, moralmente pouco recomendável ou desonesto. Tarski salientou que o truque fundamental do Paradoxo do Mentiroso reside no uso de uma linguagem semanticamente fechada ou negativa – conforme já foi explicado. E provar a inexistência constitui um absurdo lógico, como já sabemos. Mas devemos fundar aqui pelo menos duas ressalvas. Quando Sagan diz:

A ausência da evidência não significa evidência da ausência.

Faço a seguinte ressalva, anuindo e ampliando:

A ausência de provas não é prova da ausência; muito menos da existência.

Os argumentos contra a existência de propósitos morais para o universo são vastos e fortes. E não existem argumentos em favor de propósitos morais religiosos que não tenham sido invocados por meio de mentiras, fraudes, falácias retóricas e engôdos semânticos... Nenhuma comprovação, nenhuma pista, nada! Por que devemos considerar religiões – qualquer uma – como um domínio de conhecimento?

O Universo e a Vida estão desenhados pela aleatoriedade e pela involuntariedade - quer gostem ou não. Podemos inventar opiniões, mas não poderemos inventar fatos; não impunemente! E sem provas, fatos ou evidências não existe de fato conhecimento algum.

O que pode ser afirmado sem provas também pode ser rejeitado sem provas. – Christopher Hitchens

Ao que também concordo e amplio:

O que é afirmado sem provas pode e deve ser rejeitado.

Finalmente:

Quem nada sabe em tudo crê. – Jan Neruda

Isso opõe Ciência e religião, e não as nivelas - nunca... Contemple e observe o Universo como ele realmente é, e maravilhe-se com isso; e ensinemos aos nossos filhos como encarar as suas próprias fronteiras sem verdades absolutas, nem mentiras politicamente corretas, ou “alívios” que obliterem a LUCIDEZ. Considere a aterrorizante possibilidade de que um ser humano, saudável por natureza possa estar privado de vivenciar a realidade? Considere a possibilidade do desperdício desta vida? Deus é um argumento autocontraditório, embora pareça tranquilizador; mas não nos liberta como humanos plenos. Nas célebres palavras de Cornelius Tácitus:

Tranquilitas non Libertas.

Ao que eu modestamente agregaria:

Tranquilitas non Veritas.

Quando nos curvamos à autoridade, ou nos entregamos ao mero solipsismo, sem a submeter as nossas proposições ao exame de sua pertinência, estaremos potencializando problemas de toda sorte nas mais diversas áreas. Algumas disciplinas estão fundadas sobre falácias, e vivem da autoridade e da idolatria, e impulsionadas pelo historicismo - como a filosofia social, política, religiosa ou de relações humanas.

Diferentes modalidades de fascismos pipocaram nas mãos de líderes carismáticos, messiânicos e totalitários. Devotos e arrebanhados em torno de uma tal identidade nacional, estatal, racial ou religiosa, foram convocados à luta derradeira contra alguma entidade metafísica, demônios diversos, judeus, judeus, judeus, capitalistas, materialistas, cientistas, etc... Esta é a sina historicista, com origem na lateralização de nossos hemisférios cerebrais - sendo esta outra tese.

Sabemos ainda pelo entendimento do comportamento humano que algumas mentes estão mais capacitadas do que outras para encontrar padrões e ordem em meio ao caos. Algumas mentes estarão ainda destinadas a seguir e idolatrar líderes, enquanto algumas fantasiaram doentiamente sobre a realidade. Alguns líderes estarão destinados à iluminação, enquanto outros pretenderão, pela nevoa espessa e pela escuridão, um reinado de medo. Alguns estarão fadados à generosidade e a solidariedade, enquanto outros praticarão o mais sórdido egoísmo através de controle rígido e totalitário. O narcisismo, a ambição, a pulsão de vida e a procriação darão o tom; estamos bem distantes da savana africana, embora dispondo do mesmo aparato neural.

Vale notar que racionalismo e sensibilidade emocional não são mutuamente exclusivos. São características independentes e que podem até colidir em nosso cérebro, sendo estampado em nosso comportamento; mas uma pessoa emocional não significa uma pessoa irracional, e vice-versa. O sentimento é outra estória, é a verbalização da sensação emocional pura; e, portanto, estará impregnado pela linguagem, pela cultura, e por nossos estratagemas políticos. Daí tanta confusão.

Existem também pessoas que praticam o sentimentalismo; ou seja, que usam o sentimento como estratagema e alegando emoção... Daí a tal “espiritualidade”! A emoção é bioquímica, involuntária, real, física, e comanda as nossas vidas - sempre. O hipocampo, por exemplo, é responsável por selecionar e copiar trechos de nossa memória de curo prazo em nossa memória de longo prazo. Este importante módulo neural trabalha acossado pela emoção ou limitado pela falta dela. O racionalismo é uma capacidade genética, neural e bioquímica, e que não anula a emoção; sendo inclusive deflagrado por ela.

Gleiser comete muitos erros crassos em sua retórica quando deixa de trabalhar em prol do conhecimento para fazer o que chama de “estratégia diplomática”, e recusa a verdade. Ele comenta que deu uma entrevista para uma rádio AM, diante de uma plateia composta por pessoas simples – “operários e diaristas”; ao final, conta ele, foi interpelado por um senhor “com rugas precoces no rosto sujo de graxa”:

Quer dizer que o senhor quer tirar até Deus da gente?

Conheci muitos senhores com rugas prematuras mundo afora; e bem sei que o fenômeno da biologia da crença e o efeito rebanho não escolhem classes sociais. Mas a crença em deuses, a tendência a crendices sobrenaturais pode ser indutiva de piores condições sociais. De qualquer forma, uma boa instrução definitivamente pode ser um fator limitante no caso da tendência crente inata, e induzindo certa noção de lucidez e liberdade; e um fator estimulante quando a neuropsicologia é fértil para o convívio com a realidade. Mas vamos responder a Gleiser sobre a questão do senhor com “rugas prematuras”:

Não será mentindo sobre deuses forjados pelo historicismo para o mero controle político que o você aliviará o sofrimento deste senhor!

Por que Gleiser não lhes falou sobre os avanços em termos de Ciência Médica, com a redução da mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida - conforme supracitados? Gleiser não pensou que este senhor de rugas, por sua hesitação, e nesta mesma noite, vai pagar o dízimo a algum estelionatário? Este humilde senhor, além de estar livre da poliomielite, da varíola, do tifo, do sarampo, da morte prematura – com o sem rugas -, poderia estar livre também de ser sumariamente roubado! Aliás, este senhor tem a idade que tem, e pode orgulhar-se das rugas em seu rosto porque confrontamos as superstições em favor da VIDA!

A ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento: são aqueles que sabem pouco e não aqueles que sabem muito que tão positivamente afirmam que esse ou aquele problema jamais será resolvido pela ciência. - Charles Darwin

No século XVIII, as velhas crenças teológicas estavam sob fogo cruzado do livre-pensamento. Não obstante, a vontade de crer era reativada, reaparecendo de forma delirante, sempre que um nova moda sobrenatural era encenada. A varíola foi uma destas oportunidades para a ignorância religiosa desfilar o círio, e desatando uma tempestade de protestos teológicos contra a razão... Um clérigo anglicano chegou ao cúmulo de publicar  um sermão onde afirmava que:

[Assim como] as pústulas de Jó eram devidas à inoculação do diabo, assim havia sucedido com a crescente epidemia de varíola.

Vários "ministros" eclesiásticos escoceses escreveram manifestos contra a Ciência Médica e em especial contra a recente descoberta da circulação sanguínea, os estudos de anatomia, fisiologia, etc. – assim como o estudo de células-tronco em nossos dias; afirmando que estávamos “tratando de desafiar o julgamento de deus” – sobre quem deve ou não deve morrer, e quando (?)... Mas a varíola responderia à toda esta carolice com mais e mais mortes; quanto mais oravam e praguejavam contra a Ciência, mais mortos. Os terrores teológicos foram acalmados pelo terror imposto pela realidade da morte!

A controvérsia parecia declinar, quando foi descoberta a VACINA. Os "clérigos" de todas as facções da cristandade afirmaram em uníssono que:

[A vacina era um] insolente desafio aos céus, e à VONTADE DE DEUS.

Em Cambridge e na Sorbonne universitários cristãos unidos pronunciaram sermões opondo-se à VACINA. O mais grave sucedeu quando em 1885 e já no século XIX houve um disparo no número de casos da doença em Montreal, Canadá; e a parte católica da população repudiou a vacinação. Um sacerdote católico declarou que:

Se estamos afligidos pela varíola é por que comemoramos o carnaval no último inverno, festejando a carne e ofendendo ao Senhor.

As mortes vieram sem trégua sobre os católicos; "deus", por alguma misteriosa razão, pouparia apenas àqueles que foram vacinados...

Os Padres Oblatos, cuja igreja estava situada no coração do distrito infestado, seguiram denunciando a vacina; foi exortado aos fiéis para que se dedicassem a diversos tipos de devoção; com a permissão das autoridades eclesiásticas, foi ordenada uma grande procissão com um solene chamamento à Virgem, e foi cuidadosamente especificado o uso do rosário. (White; op. cit., v.II, p.60)

Pobres fiéis, aniquilados pela varíola! Esta seria uma excelente estória para Gleiser contar ao “senhor de rugas”; e sobre os mal entendidos envolvendo a nobre atitude científica – esta sim, uma verdadeira "benção", se preferirem... E existem outros tantos exemplos. O mesmo sucederia com o advento da descoberta dos efeitos anestésicos do clorofórmio, pelo médico escocês Sir James Young Simpson (1811—1870). Simpson, em 1847, recomendou o uso do clorofórmio para alívio das dores no parto, ao que o clero lhe respondeu com Gênesis [3:16]:

E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. - Gênesis [3:16]

Simpson, no entanto, logrou aprovar os anestésicos para os homens, salientando que:

Deus anestesiou Adão, adormecendo-o, antes de extrair sua costela.

Terrível! Sim, precisamos abolir tudo isso, o Corão, a Torá, o Velho e o Novo Testamento, a RELIGIÃO; para vivermos melhor, com mais saúde, paz, e em verdadeira harmonia. E não seremos capazes da fazê-lo se não pudermos entender e combater o primeiro fundamento contido em tais livros; i.e., o enaltecimento da ignorância pelo repúdio à razão e ao entendimento, ao conhecimento REAL, factual, científico... E a subsequente glorificação da submissão, da servidão e do conceito de manada.

Não seremos capazes de abolir tais livros se não pudermos entender antes a clara sentença de morte à consciência e àqueles que a conservam: os "hereges"... E não poderemos dar este passo se não pudermos constatar também o preconceito, o sectarismo, o racismo, a pulsão de MORTE, e o regozijo pela morte, contido em tais mensagens apologéticas.

Precisaremos confrontar os dogmas de tais sociedades extremamente preconceituosas, estratificadas, eliminando o aspecto "pecaminoso" de escolher com quem casar, ou não se casar, e de viver como pretendemos; eliminando a figura absurda do dote, e enaltecendo a figura do afeto entre parceiros, entre casais. Esta não é a supremacia de uma cultura sobre a outra, senão a supremacia da liberdade sobre a opressão. Precisamos enaltecer o valor PENSAMENTO repudiando o culto à SUBMISSÃO...

Se eu pudesse impedir o sofrimento, eu o faria; se pudesse impedir o estupro, a violência contra crianças, a opressão de indefesos, a injustiça, eu o faria. E isso, além da coragem da verdade, me separa dos deuses... e os reduz a um pálido e doentio facho de terror, medo, e covardia - que a Neurociência pode explicar. Se os deus não se saíram bem com este mundo, porque se sairiam melhor em outro? O problema com as utopias é que nunca serão postas à prova.

E neste ponto devolvo a citação apelativa de O Pequeno Príncipe a Gleiser - porque este gesto de coragem é o verdadeiro gesto de amor:

Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. – Antoine de Saint-Exupéry (O Pequeno Príncipe)

Um homem de bem poder até seguir em frente com sua preferência devota, mas não pode esconder a VERDADE alegando que não existem verdades... E escutem a Galileu quando sabiamente adverte que a melhor forma de endereçar a verdade é propor proposições bem demarcadas e objetivas; questões genéricas e o truque da VERDADE ABSOLUTA só serve ao propósito de destruir proposições claras e objetivas, e benéficas à VIDA. Sim, porque diminuímos a mortalidade, a violência, e aumentamos a expectativa de vida porque existem verdades... Mas subimos em uma rampa acendente em forma de serra, com vieses de alta e baixa... mas avançando de forma contingente, convergente e cega... E fascismos, como estamos presenciando em nosso país, destroem os sonhos de algumas gerações. Destacando mais uma vez que existem gradações de erro, existem verdades, existem mentiras!

“[...] não há testemunho suficiente para fundamentar um milagre, a menos que o testemunho seja tal que sua falsidade seria ainda mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer [...]. Peso um milagre contra o outro e, de acordo com a superioridade que descubro, pronuncio minha decisão e rejeito sempre o milagre maior.” – David Hume

Charles Bukowski, que muitos idolatram sem limites, não passou de um cínico e debochado; enquanto se autodestruía, publica e narcisisticamente, levou um mundo de bobos à vã idolatria. O mesmo fenômeno, com severos agravantes, pode ser dito do mito de Che Guevara, um psicótico covarde e assassino. Sendo estas proposições amplamente comprovadas - embora de outra classe de verificação: a documental.



Lutamos por essa indelével nuance que distingue o sacrifício do misticismo, a energia da violência, a força da crueldade, por essa nuance ainda mais sutil que separa o falso do verdadeiro, e o homem que almejamos nos tornar dos deuses frágeis que vocês reverenciam. - Albert Camus (Carta a um Amigo Alemão - I; 1943) 

MAS SIM, EXISTEM VERDADES - mesmo que não as queiram encarar... E relativizar a existência de proposições verdadeiras tem sido o primeiro ato daqueles que logo em seguida passarão a reclamar autoridade sobre a realidade - e sem apresentar qualquer tipo de prova, senão o CINISMO e não raro o DEBOCHE... Mas estarei aqui para denunciar!

A Filosofia não consistiria afinal em fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora? Ela duvida da existência, mas fala seriamente do "Universo". - Paul Valéry (O Homem e a Concha)

Homens “tementes a deuses” realizaram proezas intelectuais e científicas; sempre e quando atuaram
como cientistas, como homens livres, e avessos à necessária submissão dogmática religiosa – exercida pelo temor... Homens religiosos emularam comportamentos científicos, e vice-versa. Então, separem conceitos e ideias de homens, e credos ou temores de atitudes...

O que é necessário não é a vontade de acreditar, mas o desejo de descobrir, que é justamente o oposto. - Bertrand Russell

Sob o obscuro pretexto de não atingir a perfeição muitos deixam de fazer a sua parte, capengando, e impedidos de culminar naquilo que realmente importa: PROGRESSAR! Algumas pedras da tradição
devem ser preservadas - poucas; mas não por respeito às pedras, mas por amor aos homens... E FELIZ DO HOMEM QUE PODE OPTAR PELA VERDADE!


Q.E.D.


Carlos Sherman

domingo, 10 de dezembro de 2017

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO NATAL (2017)...





O Natal é um bom momento para profundas reflexões...

Santa Claus, Father Christmas, Sinterklaas, Papai Noel, Papá Noel, Baboo Natale, Pere Noel… Muitos são os nomes que recebe este personagem bonachão, terno e protetor, que a cada noite de natal, percorre o planeta distribuindo presentes para as criancinhas...

Mas o único e verdadeiro Papai Noel de carne e osso de que se tem notícia, viveu no século IV da era cristã no vale de Lycia, na Asia Menor... Chamava-se Nicolás e foi uma das figuras mais veneradas pelos cristãos do Oriente e Ocidente durante toda Idade Média...

Nicolás de Bari nasceu em uma família abastada de comerciantes, e logo que os seus pais morreram por causa da peste negra, comovido pela tragédia, distribuiu a sua herança para o povo assustado que havia sobrevivido a toda esta catástrofe... Depois seguiu para Myra (Turquía), para procurar o seu tio que era o bispo do povoado...


A Lenda...

Aí saímos do campo da história e passeamos pelo mundo das lendas, segundo a qual, em função da morte do seu tio, os sacerdotes da zona, não encontrando um acordo sobre quem seria o seu sucessor, decidiram eleger o primeiro cristão que pusesse os pés na igreja... E assim, Nicolás se convirteu no bispo de Myra...

De volta à história, sabemos que sua figura cresceu a tal ponto, que ele foi convertido em santo, e patrono da Grécia e Rússia, e por toda a Europa, se ergueram templos em seu nome... Inclusive, em 1807, navegantes italianos  sequestraram os seus restos mortais, que estavam guardados pelos muçulmanos e levaram de volta a Bari, onde permanecem até hoje...

A tradição de São Nicolau, levando presentes na noite de natal se expandiu por toda a Europa durante o século XII, misturando-se a outras celebrações... Quinhentos anos mais tarde, os holandeses levaram esta tradição aos Estados Unidos... Na Espanha, por outro lado, são os Reis Magos os encarregados de trazer os presentes, e este costume se difundiu por toda a América Latina...

A Coca-Cola...

Papai Noel distribuía os seus presentes à cavalo, até o famoso escritor  de contos Clement Moore  imaginar São Nicolau em um trenó puxado por oito renas... Ele só foi desenhado pela primeira vez em 1931, para uma campanha da Coca-Cola para o natal... Foi aí que ele adquiriu a sua roupa vermelha e branca, sua longa barba branca e sua pança avantajada... Recebeu bochechas rosadas, um sorriso eterno e olhar de suma bondade...

Essa é a imagem que Papai Noel tem hoje em todo o mundo...



Porque 24 de Dezembro?

É muito difícil precisar quando começou a celebração do Natal no formato que vemos hoje em dia... Numerosas estórias, lendas e mitos foram sendo somados ao longo dos séculos, provenientes de diferentes países e diferentes culturas...

O que todos sabemos é que a cada 24 de dezembro se espera a chegada da meia noite para comemorarmos o nascimento de ‘Jesus Cristo’, que teria sido anunciado - e depois refutado - por profecias judaicas, e venerado pelos cristãos como filho direto de seu ‘Deus’...

A data na realidade surgiu por decreto, e pela autoridade exercida pelo Papa Júlio I, em 350 – tempos cristãos -, que estabeleceu ainda, e com muito mais relevância histórica, que o ‘nascimento do Salvador Jesus Cristo’ deveria substituir a veneração e adoração ao – superado - ‘Deus Sol’... O nascimento de Cristo passou então, a ser comemorado no Solstício do Inverno em substituição às festividades do 'Dia do Nascimento do Sol Inconquistável'...

Numerosas divindades - anteriores a Cristo - também ‘nasceram’ no mesmo ‘marco’, como Hórus, Mitra, Attis, Khrishna, Dionysio, entre tantas outras; terminando por influenciar o arbítrio papal desta ‘data’ como sendo - também - o marco para o nascimento da nova divindade: 'Jesus Cristo, O Salvador'...

A celebração do Natal Cristão, na passagem de 24 para 25 de dezembro, surgiu em paralelo – por exemplo - com as respectivas solenidades para Deus Mitra, cujo nascimento também era comemorado no Solstício de Inverno no Hemisfério Norte - e de Verão no Hemisfério Sul... No calendário romano o solstício acontecia erroneamente no dia 25, em vez de 21 ou 22... Os romanos comemoravam na madrugada de 24 de dezembro o "Nascimento do Invicto", como alusão do alvorecer de um novo Sol, e o nascimento do Menino Mitra... Já foram encontradas figuras do pequeno Mitra em Treveris, e a semelhança com as representações cristãs do Menino Jesus são incontestáveis...

Mas a liberdade de culto ao cristianismo, estendido à todo o Império Romano, só seria seria oficializada em 313 com o Edito de Milão expedido por Constantino... Rapidamente os cristãos tomaram os postos dos sacerdotes pagãos na sociedade, inclusive mantendo as festas, rituais, vestimentas e indumentárias pagãs... Em Roma o papa cristão passou a ser o Sumo Pontífice, substituindo de maneira pomposa o anterior chefe religioso pagão... Constantino também passaria a estar ligado a ele, e esse legado traria mais tarde a unificação das religiões no império - até porque o culto a Mitra trazia semelhanças com o cristianismo... 

Mas tal oficialização só viria em 27 de fevereiro de 380, com o Édito de Tessalônica, também conhecido como Cunctos Populos ou De Fide Catolica... O responsável por este feito, elevando o cristianismo niceno à condição de único culto permitido dentro das fronteiras do estado romano, seria o imperador Teodósio I... Assim, todas as demais práticas e rituais pagãos e politeístas seriam terminantemente abolidas e proibidas...


O nome "Vaticano" é anterior ao Cristianismo e vem do latim Mons Vaticanus, ou seja, o Monte Vaticano... A raiz da palavra "Vaticano" é derivada do latim "vates", que significa "vidente, adivinho", que por sua vez é uma palavra emprestada do etrusco... Os Etruscos habitaram a Península Itálica, antes dos Romanos, e na verdade deram origem ao povo Romano... A Colina do Vaticano foi a casa dos vates – ou videntes - muito antes da Roma pré-cristã... Vaticanus, também conhecido como Vagitanus, era um deus etrusco, que "abria a boca do recém nascido para que ele pudesse dar o primeiro grito, o primeiro choro", e seu templo foi construído no antigo local de Vaticanum... Era também o nome de uma das sete colinas de Roma onde se erguia o Circo de Nero... Lá, segundo a mitologia cristã, São Pedro teria sido martirizado, crucificado – de cabeça para baixo - e sepultado, por proclamar a sua devoção a Jesus Cristo...

O território correspondente ao Estado Vaticano só seria doado pela Itália à Santa Sé em 1929, com o Tratado de Latrão, assinado entre o Papa Pio XI e Benito Mussolini; isso, além do perdão de dívidas da igreja, o pagamento de uma soma elevadíssima em dinheiro, e uma mesada vitalícia do governo italiano - que já foi revogada. Este Tratado garantiria o apoio incondicional da igreja ao fascismo de Mussolini e ao nazismo de Hitler - seu confesso aliado.


Sunday

A conceituação de Deus como um Sol – o Deus Sol -, não ocorreu somente por causa da facilidade com que esta alegoria se aplica a Deus... Mas ainda e, sobretudo, porque os cristãos receberam esta herança de cultos anteriores e vigentes no seu entorno, e o mantiveram por interesses políticos na tentativa de solidificar um estado forte...

Em 274 d.C o Imperador Aureliano proclamou a passagem do dia 24 para o dia 25 de Dezembro, como "Dies Natalis Invicti Solis" (O Dia do Nascimento do Sol Inconquistável)... O Sol passou a ser venerado... Buscava-se o seu calor que ficava no espaço muito acima do frio do inverno na Terra... O início do inverno passou a ser festejado como o dia do Deus Sol... Ou seja, o dia 25 de dezembro foi proclamado, portanto, depois do nascimento de Jesus... Então os demais deuses, na realidade, ‘nasceram’ - também - no solstício de inverno e não no dia 25, sendo esta vinculação posterior ao ‘nascimento’ de Cristo, assim como Hórus, Mitra, Attis, Khrishna, Dionysio, Cristo, e tantos outros...

Como podemos notar, a data de nascimento de Jesus é uma data meramente comemorativa, que foi oficializada quase 400 anos depois de seu – suposto - nascimento... Isso ocorreu porque a bíblia não nos dá a informação exata sobre a data do seu nascimento - e na verdade a exatidão não é o forte da Bíblia...

Vale lembrar ainda, que nos tempos bíblicos, não existia um sistema de calendário fixo para os diversos países ou povos... Cada povo tinha o seu calendário... Os calendários sempre eram confusos e muito diferentes uns dos outros... Muitas vezes, na sucessão monárquica, e por ordem do novo rei, o calendário era modificado de acordo com o seu gosto, capricho, e gozando de plena liberdade... Um exemplo disso é na própria bíblia... Não encontramos, por exemplo, nenhum texto onde as pessoas comemorem aniversários – os Testemunhas de Jeová que o digam... Ou seja, as pessoas não sabiam ao certo em que data haviam nasceram, devido a tantas mudanças e imprecisões – e não porque fosse pecado celebrar um mísero aniversário...


O Tempo

O calendário que adotamos hoje é uma forma recente de contar o tempo... Foi o Papa Gregório XIII que decretou o seu uso através da Bula Papal "Inter Gravissimus" assinada em 24 de fevereiro de 1582... A proposta foi formulada por Aloysius Lilius, um físico napolitano, e aprovada no Concílio de Trento (1545/1563)... Nesta ocasião foi corrigido um erro na contagem do tempo, desaparecendo 11 dias do calendário... A decisão fez com que ao dia 4 de outubro de 1582 sucedesse imediatamente o dia 15 de outubro do mesmo ano... Os últimos a adotarem este calendário que usamos foram os russos em 1918...

O calendário Judaico é composto da seguinte forma: Os anos têm 353 dias quando são "defeituosos", 354 os "regulares", e 383 dias os "perfeitos" ou "abundantes"... O Rosh Hashana (Ano Novo - 7 de outubro do nosso) dá in¡cio ao período de dez dias de penitência, que vai até o Yom Kipur, Dia do Perdão... O calendário israelita é lunissolar, com anos solares e meses lunares... Para se ajustar os meses ao ano solar, intercala-se um mês nos anos 3, 6, 8, 11, 14, 17 e 19 de um ciclo de 19 anos... Os meses são fixados alternadamente com 29 e 30 dias... Sempre em ordem, e essa ordem não falhava, justamente por considerar apenas os movimentos observados da Lua e Sol... O calendário Judeu nunca sofreu modificações por parte de reis e governadores, sendo o mesmo até hoje, e poderia ser uma respeitável fonte histórica, mas como os judeus não ‘deram muita bola’ para o mito de Jesus, sua data não foi registrada...


O Presépio

Embora a data não possa ser determinada com exatidão, o certo é que Jesus bíblico, nasceu durante o reinado de Herodes, rei da Judéia... E ainda, segundo relata a Bíblia e a crença cristã, Maria (que estava grávida) e José, seu companheiro, estavam a caminho de Belém para fazer a inscrição em um censo ordenado pelo imperador... Ainda segundo a lenda, quando já estavam em Belém, chegou o momento de dar a luz... Mas como não encontraram pousada em nenhuma estalagem, em função do grande número de pessoas nesta localidade, decidiram buscar abrigo em um estábulo, e assim nasceu o menino Jesus...

Esta cena foi recriada muitas vezes, mas foi montada e encenada pela primeira vez em 1223 por São Francisco de Assis na Itália, e a recriação ocorreu em um verdadeiro estábulo com a participação de camponeses da região...

Desde então, o nascimento de Cristo foi reproduzido das mais diversas formas possíveis, não somente com personagens, mas também com imagens e figuras em todo tipo de material, expandindo o costume de montar o Presépio para a celebração do Natal, principalmente em países com forte de tradição Cristã...

Este costume chegou até a América pelas mãos dos portugueses e espanhóis, nos tempos da grande cruzada de evangelização... E apesar de mais tarde, terem sido agregados os símbolos de Papai Noel e da Árvore de Natal, o Presépio e a celebração do nascimento de Jesus permanecem como figura central em muitas casas por todo o mundo... 


A Árvore de Natal

Todo dia 8 de dezembro, milhares de famílias brasileiras se dedicam a montar a Árvore de Natal... Este costume, que leva pouco mais de 200 anos em nosso país, na realidade vem de muito longe...

Foram os romanos, os primeiros a decorarem suas árvores para cada uma de suas celebrações... Mais tarde este hábito se espalhou até alcançar o norte da Europa. Por isso, as árvores que se são montadas e decoradas, são pinheiros típicos desta região... E são cobertos com grinaldas prateadas simulando a neve, também característica desta região, onde evidentemente era inverno...

Também existe uma lenda, que conta que na antiga Germânia do século VII, um monge missionário inglês, talhou na noite de natal, um tronco que era usado nas festas pagãs para oferecer sacrifícios humanos... E neste lugar cresceu um tipo de árvore que depois foi convertida em um símbolo do cristianismo...

Outra lenda européia conta que durante uma fria noite de inverno, um menino procurou refúgio na casa de um lenhador e sua esposa, que o receberam e deram de comer... Durante a noite, o menino se converteu em um anjo vestido de ouro: era o menino Jesus – imaginem vocês... Para recompensar a bondade dos anciãos, ele tomou um ramo de pinho e lhes disse para semear, prometendo-lhes que a cada ano daria frutos... E assim foi: aquela árvore deu maçãs de ouro e nozes de prata...

As primeiras árvores montadas no Brasil datam de 1800, e foram armadas e decoradas por imigrantes europeus... O costume de montar presépios veio de Portugal...




Reflexões...

O Natal é, pois, uma festa para onde convergem diferentes e variadas culturas, e a despeito de suas origens históricas, lendas e tradições, nos conduzem a uma experiência única: a sensação de unidade global...

Estamos todos unidos no mesmo 'rito' de reunir a família e os amigos, para DAR... Dar presentes simbolizando afeto, dar aquele sorriso largo e o abraço amigo... Beijos apaixonados, o som das taças em celebração, as vozes do presente e do passado... A experiência sublime, vivida por outros costumes, de outros povos, de outras eras, humanos como nós...


UMANOS, TROPPO UMANOS...





Este é o meu sentido do natal, e qual é o seu? 





Um Feliz Natal, repleto de saúde e ternura...
Porque saúde é o que importa...
E o resto?
O resto nós corremos atrás em 2018...


Carlos Leger Sherman Palmer







P.S.

Anote:


Horus (egípcio) 3000 a.C.
- nasceu dia 25 de dezembro;
- nasceu de uma “virgem”, a deusa Ísis-Meri com Osíris;
- nascimento acompanhado por uma estrela a Leste;
- estrela seguida por 3 reis;
- aos 12 anos, era uma criança prodígio;
- batizado aos 30 anos;
- começou seu ministério aos 30;
- tinha 12 discípulos e viajou com eles;
- operou milagres e andou sobre as águas;
- era “chamado” de Filho de Deus, Luz do Mundo, A Verdade, Filho adorado de Deus, Bom Pastor, Cordeiro de Deus, etc;
- foi traído, crucificado, enterrado e ressuscitou 3 dias depois.


Nos outros deuses, encontramos a mesma estrutura “mitológica”. Vejamos:

Mitra (persa – romano) 1200 a.C
- nasceu dia 25 de dezembro;
- nasceu de uma virgem;
- teve 12 discípulos;
- praticou milagres;
- morreu crucificado;
- ressuscitou no 3º dia;
- era chamado de “A Verdade”, “A Luz”;
- veio para lavar os pecados da humanidade;
- foi batizado;
- como deus, tinha um “filho”, chamado Zoroastro.

Attis (Frígia – Roma) 1200 a.C.
- nasceu dia 25 de dezembro;
- nasceu de uma virgem;
- foi crucificado, morreu e foi enterrado;
- ressuscitou no 3º dia;

Krishna (hindu – índia) 900 a.C
- nasceu dia 25 de dezembro;
- nasceu de uma virgem;
- uma estrela avisou a sua chegada;
- fez milagres;
- após morrer, ressuscitou.

Dionísio (Grego) 500 a.C
- nasceu de uma virgem;
- foi peregrino (viajante);
- transformou água em vinho;
- chamado de Rei dos reis, Alpha e Ômega;
- após a morte, ressuscitou;
- era chamado de “Filho pródigo de Deus”.

Qualquer semelhança não é mera coincidência...

Existem outros deuses com características muito semelhantes a estes... Estes são os mais conhecidos, e os que co-existiram com a nova religião, chamada de cristianismo... Ou seja, quando o cristianismo surgiu, tais deuses ainda eram adorados...


PENSO, LOGO RIO!!!